quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Carta de compromisso com a Dra. Daniela Christovam

Olá, Daniela!

Sou a autora do blog Linha na Pipa, de Piracicaba. Gostei muito de ver seu comentário e acho importante a gente botar os "xingamentos" pra fora quando algo tão grave nos incomoda. Sugiro que quando sentir raiva, mande tudo à merda (não ao inferno ao à puta-que-o-pariu), porque da merda, nada volta intacto. É o melhor desabafo, te garanto!!

Estou cansada de imaginar os próximos 40 dias de radio e os prováveis seis meses de quimioterapia que irei encarar a partir do final deste mês. Não deveria, mas é inevitável a pré-ocupação com o próximo período. Posso imaginar o que sente... mas nunca sentirei por vc.

Estou aproveitando o momento para acostumar minha mente a se adaptar ao "um dia de cada vez". Sou fumante, sou repórter (portanto, boêmia/ insone quase que por natureza), sou uma apaixonada pela vida, pelas pessoas, pelas cores e vejo um futuro breve e rápido para tudo isso, porém nada muito colorido. Sou otimista, não sádica.

Tenho muitos amigos especiais comigo e fortaleço minha fé, que acredito, seja o lugar onde não haja espaço para dúvidas, na certeza de que tudo passa e as experiências se renovam a cada novo olhar que lançamos à esperança de vida nova quando acordamos. Um dia de cada vez.

Já notou que recebemos da vida uma nova chance a cada dia? E que a responsabilidade é unicamente nossa ao fazermos as escolhas?

É uma fase difícil e repleta de conflitos, certamente. É um processo muito chato, cansativo, de responder a perguntas e de procurar respostas internas na tentativa de fazer avaliações vãs. Se pensarmos no viver como um todo, todo ele é composto por essas mesmas teses, em diferentes níveis e etapas.

Ontem fui a uma festa com amigos numa chácara e tive a sorte (eu acho uma grande sorte) de ver uma linda estrela cadente. Não é estrela, elas não caem, claro. Mas de criança aprendi (como todos) a fazer um pedido. Pensei: puxa vida, que sorte a minha!!! Puxa, que sorte a minha, vida!!! Obrigada!! Não poderia contar, mas vou dizer a vc bem baixinho: pedi que meu processo de terapia seja leve, maduro e consciente. Mas que seja, especialmente, breve, pois não gosto do que vem por aí, mesmo sabendo da necessidade para se estancar a ferida que se abriu em minha alma de tanta tristeza - e que os amigos, a família, não vêem, porque o amor que tenho recebido deles me impede de esconder meu melhor sorriso, meu maior abraço, minha alegre companhia, minha divertida dose de felicidade em cada momento.

Hoje mesmo pensei sobre as boas coisas que essa vida me proporcionou e, por uma mania boba de criança que a gente tem de eleger três delas, não tenho dúvida de que, dos tantos momentos que tive em meus 38 anos de idade, as melhores foram: 1- o nascimento de minha Mariana, minha verdadeira vida, meu grande amor; 2 - fazer mergulho (sou encantada pelo mar e é fascinante como a gente aprende a deixar de ser tão egoista quando se depara com outras espécies de vida, tão diferentes e tão maravilhosamente instigantes quanto a nossa); 3 - encarar esse desafio da doença, porque descubro e provo diariamente tantas formas de receber amor e cuidado.  Me tornei mais paciente e menos tolerante... mais tolerante e menos inconsciente.

Noto que o grande aprendizado, para mim, para vc, para o lindo do Gianecchini, para nossas famílias e amigos, é permitir que o amor se faça verdadeiro, que a doação seja plena em algum momento e que a dor de nossas almas frágeis e tristes seja substituída por um "não aceito isso e vou me fazer melhor".

Para nós, três estrelas, em especial, o aprendizado passa ainda pelo teste da capacidade maior da sobrevivência: vencer-se a si mesmo e fazer a escolha de quem pode mais.

Estou muito triste por ter que perder meus cabelos, que são bonitos, brilhantes, a moldura do rosto, mas agradeço por ter mãos habilidosas e mente sã para me comunicar com vc, por exemplo. E com quem mais achar que deve ler o que boto pra fora do coração.

Estou fazendo muitos planos, para todos os dias que virão e para os que se renovarão depois desses próximos. Quero usar perucas coloridas, laços e lenços, mas quero não perder a vontade de sair pra ver a rua, as pessoas e desfrutar da beleza das paisagens. Quero não sentir tantas náuseas e tonturas para continuar a escrever alguns textos para este blog. Quero sentir-me disposta para não deixar de falar com uma pessoa muito especial, que tem me feito sentir tão mais feminina e despertado uma paixão deliciosa, que provoca em mim efeitos de felicidade verdadeira ao longo de todo o resto do meu tempo... e torço para que ele também tenha essa disposição. Quero continuar otimista sem contar demais o tempo, só aproveitá-lo como fazem as crianças, para quem 20 anos e 20 moedas não acabam nunca!. Seria cruel demais comigo me ater a pensamentos negativos, embora a vontade às vezes (eu sei, minha amiga) seja de se entregar, desistir, porque parece que não vai acabar nunca!

Fui bailarina e me lembro que quando a sequência de pliês fazia latejar as batatas das minhas pernas, eu contava o tempo de trás para frente e tinha a impressão de que passava mais fácil.

Vamos tentar contar de trás para frente e ver o que acontece, xará, se tudo passa mais rápido e a dor fica mais branda? Vamos contar juntas, porque estou com vc nisso e sou grata a Deus por essa oportunidade. No três, Dani, vamo lá, sem desanimar!!! Três, dois, ummmm.... chegou o dia da nossa cerveja! Faço questão de brindar com vc a alegria de uma nova amizade que surgirá do compartilhar dessa nossa grande experiência!

Que seja leve enquanto dure. Um beijo muito carinhoso pra vc.
Carinho é o que mais a gente quer e merece neste momento.

Dani


OBS: Publico essa carta pra que vc não se esqueça do quanto é importante manter-se firme neste momento para que a gente não quebre nosso compromisso sério de tomar a cerveja. Trincando de gelada, por favor!
 


Um comentário:

Dani Christovam disse...

Oi Dani! Grata pelas suas palavras! Li e reli e estou num turbilhão de emoções! Tem coisas boas, coisas lindas, coisas feias, coisas de raiva... tudo junto, bem misturado! Mas antes viver todo esse processo sentindo e vivendo cd momento, cd riso sincero sim (vc sabe q o riso e a alegria não foram embora... apesar de uma nova tristeza ter chegado...) e tb cd lágrima q não consegue expressar nem o cansaço nem a raiva q tem aqui dentro...
Esses dias percebi que a vida tá passando não só p minha amiga q esperava ansiosa o dia do seu casamento (e q hj já está em lua de mel em Paris!!!), mas p mim também!!!! Pra nós Dani!!! E agora, mais uma motivação p seguir confiante: á nossa cerveja trincando!!!!
Beijos querida, muito obrigada, muita força e muita luz p vc tb!