"Nenhuma arte é maior que a arte do amor. O amor é a única riqueza que se multiplica por divisão."
Ouvi isso em um casamento certo dia em São Paulo, quando fui acompanhar meu amigo Gustavo Cella.
Noivos simples, apaixonados, famílias humildes, mas tudo bonitinho, com cara de que foi preparado dentro dos conformes e das possibilidades, com muito carinho. É o que interessa.
Eu ali, em Moema, um dia de garoa, meu coração ainda imensamente triste, meu peito doendo de forma que eu não conseguia fazer parar (sabe o que é isso? não queira...) por sofrer de uma dor de (des)amor insuportável e covarde para mim, mas disposta a abrir-me à renovação. No abraço do meu amigo Gus, que me fez uma privilegiada por sua existência em minha vida, presenciei uma das cenas mais amorosas, sem exageros, sem ser de novela. Agradeço a Deus por me sensibilizar para aquilo.
A alegria do noivo quando a moça entrou. Nunca vi nada igual. Ele a observava apaixonadamente, emocionado, chorando discretamente e sem desviar os olhos dela. Sussurrava pra ela, ao longe, extasiado, feito um menino grande, enquanto ela vinha de lá, serena: "que linda, meu amor, que linda"... e limpava as lágrimas com o lenço retirado da lapela... "ai, meu Deus, como eu te amo"... ele dizia, orando, olhando por vezes para o alto... "você é a mulher da minha vida"... e sorria para ela com cumplicidade...
Eu assistiria aquele casamento por muitas vezes, sem me cansar de olhar para aquele rapaz. Senti uma esperança... acho que foi esperança o que senti, não sei, esperança de que aquele seria um casal feliz...
Tive um casamento imensamente feliz e bem-sucedido, com um homem maravilhoso e eterno em minha alma, que me deu meu maior presente divino, que é minha filha... eu sei o que é ser feliz, por isso sei o que espera aquele casal. Havia respeito, cumplicidade, harmonia e amor, que é fruto de tudo isso e que gera prosperidade e paz.
Pensei que aquele era um momento tão único para eles, que o moço não conseguia expressar o que sentia na medida que queria. Era impossível e isso o emocionava.
Escolher ficar com alguém é isso. As palavras não são suficientes pra expressar o que a gente sente, de imenso que ta lá dentro. Nasce uma necessidade de se partilhar da vida do outro, partilhar, de ser parte. Quanta importância há nisso que muita gente não vê. Relações efêmeras, mas no fundo todo mundo quer alguém.
Apaixonados são privilegiados. Falo da paixão do amor mesmo, não aquela que, dizem, dura dois anos e passa. Amor não passa nunca... é como o cheiro da chuva na terra, o gosto da infância na mente, a sensação abstrata das experiências concretas, a voz da mãe, o abraço do irmão, o vôo de liberdade quando o pai joga a gente pro alto e curte junto, a risada de aprontar inocências com os amigos, a aprovação discreta da professora - que observa em você o futuro que você ainda não vê -, fingir dormir, até adormecer de verdade vendo TV no colo do vô. O primeiro olhar eterno e totalmente entregue que a gente lança para o filho. Único... como todos os que virão.
São tantas as felicidades dessa vida... e, veja, nenhuma delas se faz na solidão, se faz sem uma parcela de amor, sem a entrega do coração. Sentimento tem que ter gente, troca, alma. Amor é um privilégio de todos. Lamentável quem não é capaz de se dar, quem desconfia que não mereça, quem se limita ao pouco, não se permite, se aprisiona em si. "Que a liberdade seja o que nos prenda um ao outro."
O amor faz da gente um ser melhor, seja como for, o resultado é sempre esse. Todas as boas experiências da vida são feitas dele. Tantos poetas cantam o amor... Agradeço a todos os meus amores por darem repertório à minha história.
Só o amor vence o tempo... o recheio fica na lembrança pra sempre, não o fim (e é pra essa recordação que muita gente dá mais valor e não deveria). O tempo apaga todas as saudades, em nome do que é bom, menos a saudade do amor.

