terça-feira, 13 de dezembro de 2011

"A vida é a perda lenta de tudo o que amamos"

Meu amigo Gustavo Cella e eu, sempre em  momentos felizes

A frase do dramaturgo e poeta Maurice Maeterlinck é perfeita para expressar meu momento de muita tristeza. Eu estou sangrando, hoje sou um pedaço de nada e todas as coisas que pareciam importantes, perderam o sentido. Quando a gente acorda de manhã, é como se despertasse para novas possibilidades, para uma vida nova todos os dias. Pois hoje acordei com a notícia de que minha vida renovada neste dia não terá mais meu melhor amigo. Tenho uma percepção diferente e tranquilizadora sobre a morte, mas essa perda... ahhhh... como estou triste, meu Deus, dói tanto!!!! Que dor!!! Que dor!!!

O Gus foi uma das pessoas mais lindas que tive na vida, meu parceiro na alegria, na tristeza e todos os outros sentimentos, meu acolhimento por qualquer meio, mesmo quando nossos dias eram tão atarefados que duravam meses de afastamento físico, ele estava sempre disponível, provando que o amor verdadeiro não morre na distância. 
Seu sorriso lindo e constante, os olhos verdes brilhantes e aquele topete no cabelo, faziam parte de um conjunto que o transformavam, como a gente brincava, num personagem de desenho animado. Tinha sempre uma solução pra tudo em sua bolsa ou em alguma gaveta do seu quarto.
Sempre sorridente e quando falava sério, eu tirava sarro dos biquinhos que fazia o formato da sua boca. Se expressava com as mãos, como todo bom italiano, mas tinha classe e um porte perfeitos. Era um homem muito bonito, que chamava a atenção e eu adorava quando a gente saía e ele fingia que era meu namorado. 
Ele era tão abraçável, meu Gu. Me abraçava de uma maneira única, com a verdade de seu coração, e não permitia que eu saísse dali sem antes dispensar a angústia e consertar o sentimento. Mas também me apertava muito quando o abraço era de alegria, comemoração. Me erguia do chão com aquele tamanho e seus braços gigantes que, desconfio, foram feitos mesmo com o propósito de abraçar, porque eu não era a única que se sentia privilegiada por essa boa amizade. 
Ele me ensinou a amar o que tenho, sem desperdiçar o desejo, mas com paciência para quando a conquista acontecesse com lentidão. 
Ele me ajudou a lidar com a ferida de uma paixão doente e sempre me lembrava sobre meu valor como a mulher que me enxergava.  como eu merecia muito mais, um príncipe que viesse em um carro importado e todas as sortes materiais da vida, para que pudesse trabalhar menos e cuidar melhor dos cabelos (quando eu aparecia tarde da noite na casa dele, depois de sair descabelada e despedaçada de cansaço da redação). "Mas se não for um príncipe, querida, que seja só mesmo um cavalo 'com pedigree' pra vc cavalgar ao vento e justificar esse cabelo que merece ser apresentado a um pente. Sapo não, porque sapo é feio, ninguém merece, muito menos vc que é tão linda." 
Nessas brincadeiras, fazia com que eu percebesse imediatamente um valor que a gente esquece que tem quando está dentro do olho do furacão, quando a vida está a mil e a principal perspectiva é conseguir dormir logo pra acordar no outro dia e recomeçar a correria.
Ele tinha uma sensibilidade maravilhosa comigo. Não me perguntava sobre como eu estava, simplesmente tentava buscar alternativas para que eu estivesse sempre bem, mesmo quando com ele as coisas estavam difíceis. Era a prova de que amizade não é feita de trocas, mas da capacidade individual de doar-se, principalmente quando se é buscado.
Por conta disso, passava horas, depois do trabalho na agência de publicidade, se dedicando a tornar realidade os sonhos dos outros. Artesanalmente, ficava dias fazendo sozinho maços de 500, 1.000 convites de casamentos ou aniversários chiquérrimos que ele organizava, escolhendo temas de acordo com o desejo do cliente, colando laços, tecidos, recortando um por um, numa dedicação como se o sonho fosse dele, mas era de desconhecidos e, mesmo assim, ganhava dele todo o amor e cuidado. 
Num dos dias mais legais que tivemos juntos, há exatamente um ano, fomos para SP num final de semana, assistir a casamentos com apresentação de orquestra. A gente estava ali pra reparar em cada detalhe, com a finalidade que ele pudesse aplicar algo em seu trabalho como organizador de eventos. Era uma situação muito engraçada, mas também emocionante. Escrevi sobre isso neste blog na época - http://daniricci.blogspot.com/2010/11/amar-e-um-privilegio-de-todos.html  - e muita gente comentou, porque falei do amor, um tema que mexe mesmo com as pessoas. Apesar de parecer que não, todo mundo quer ter alguém para amar e ser amado. 
Antes da peregrinação por igrejas paulistanas, passamos em um shopping e ele me levou a uma dessas lojas de maquiagem importada, caríssima, sonho de consumo para quem ama maquiagem como eu. Assim, eu também ganhava uma maquiagem para provar os produtos e ir mais bonita aos casamentos. Esperto.
Na loja, tudo muito caro, mas segundo ele, "necessário para realçar essa sua beleza escondida" (dizia antes de rir muito e segurar meu rosto para cima, elogiando minha pele). Pois, seguindo as péssimas orientações dele, comprei uma vez um gloss Givenchy com brilho de borboleta, na cor de edição limitada Island Papaya, um verdadeiro must cor de laranja pelo qual sou apaixonada. 
Apesar de ter custado a exorbitância de mais de R$ 100, não dura dois minutos na boca. Chegamos à conclusão que o charme está em tirar o gloss da bolsa a cada três minutos para retocar, deixando à mostra o sofisticado logotipo da marca, lindíssimo por sinal. Repita, Dani: "eu sou rica!", ele me dizia e ríamos muito depois de eu obedecê-lo.  
Quando os primeiros sinais do meu problema atual começaram a aparecer, ele ficava sem almoço, chegava atrasado ao trabalho, dormia tarde para ficar mais tempo comigo, nem que fosse pela internet e se estivéssemos juntos, mesmo cansado ficava me ouvindo e quase dormia sobre minha cabeça, já que era bem mais alto que eu e essas conversas aconteciam durante um único abraço duradouro. 
Na mesma época, ele reclamava de algumas dores, mas dizia: primeiro vamos cuidar de vc, depois vejo o que faço comigo. E foi o que fez, cuidou de cada detalhe que tive necessidade, até questionar e discutir com médico para que fosse feita qualquer coisa para eu me recuperar com o menor sofrimento.
Quando soube que eu ficaria meses afastada do trabalho, se preocupou apenas em tornar minha casa um lugar mais confortável para mim. Organizou minhas coisas em pastas, caixas, armários e prometeu voltar para customizarmos os móveis, pintar tudo e restaurar, já que ele tinha habilidade para isso.    
Só que não cumpriu sua promessa. Ficou doente, precisamos nos afastar, e minha vida perdeu um brilho que nem o caríssimo gloss era capaz de dar. No meu primeiro dia de quimioterapia, ao chegar em casa depois de passar muito mal, encontrei no abrigo uma sacola com uma caixa de madeira, toda encapada de tecido e enfeitada de fuxicos, nada mais, nem um bilhete. Depois, me ligou e disse que só faltava o acabamento de botões e que faríamos juntos, dando início a uma série de trabalhos manuais para tornar nossas vidas mais repletas de simplicidade e como uma forma de construirmos coisas juntos.
Foi a última vez que conversamos, há mais ou menos três meses, depois ficou difícil saber notícias. Pensava nele e na sua falta todos os dias. Tantas coisas mudaram para mim e  não pudemos compartilhar. Outros bons amigos ganharam destaque, mas ele nunca perdeu seu reinado em minha vida.  
Me mostrou que tudo pode ser feito a qualquer momento e que podemos aprender a fazer de tudo, mas firmou comigo um compromisso pela metade, me abandonando para sempre e indo embora sem aviso prévio.  
Era um homem  extremamente educado, amoroso com o próximo, de coração aberto a Deus, que sempre era citado em suas palavras como a força necessária para se viver bem, olhos sempre alegres apesar das dificuldades, de uma sensibilidade admirável com a vida, de um cuidado ímpar com os sentimentos dos outros e de uma generosidade em fazer feliz quem estivesse em sua presença. 
Essa dor de agora vai aos poucos ceder espaço à saudade (que já era muita). Mas primeiro, preciso acreditar que isso está acontecendo. Escrevo para tentar amenizar minha imensa dor, mas não há palavras que acalentem a alma ferida pela despedida, não há nada que defina a pessoa importante que o mundo perdeu. Meu amigo era um exemplo de ser humano de qualidade. Era, antes de qualquer legenda, simbolismo, registro, uma grande pessoa. Eu amo vc, Gu.

Chiquérrimos na balada e eu com o fabuloso Island Papaya


5 comentários:

Fê Galdi disse...

Nossa Dani, que pessoa ele realmente devia ser, me emocionei e senti um pouquinho a tua dor, que amizade bonita, raro hoje em dia!
Só posso desejar conforto à vc nesse momento e à familia dele, quem fica sente...e muito!
Tô aqui pra vc!

Dani Ricci disse...

Valeu Fe.. muito obrigada. Era mesmo um grande amigo.

Claudia Assencio disse...

Muito lindo e plenamente GUSTAVO!!! Sentirei saudades! Fique com Deus, Gu!!

Alessandra Fraga disse...

Que linda amizade Dani! Você me fez rir e chorar.
Beijo querida!

Tati disse...

Sem conhecer, me apaixonei por ele!